Coluna NA: A Medicina por Trás do Véu.

Escolher a carreira médica implica, desde o início, uma sucessão de renúncias. A formação exige abdicar de momentos em família, da convivência social e, muitas vezes, do lazer. O tempo torna-se rigidamente administrado, e a vida pessoal é frequentemente relegada a segundo plano em nome de um ideal profissional que demanda dedicação quase exclusiva.

Durante a graduação, essas exigências se intensificam. A rotina passa a ser marcada por jornadas exaustivas, avaliações sucessivas, atividades práticas sob pressão (como o OSCE) e longas horas em ambientes hospitalares. Embora essencial à formação técnica, esse processo ocorre, não raro, em um contexto no qual o cansaço físico e emocional é naturalizado como parte inerente do percurso formativo.

Na vida profissional, o padrão se mantém e, por vezes, se agrava. O exercício da medicina envolve sobrecarga constante, contato contínuo com o sofrimento humano e, em alguns cenários, agressões físicas e psicológicas. O sofrimento passa a ser tolerado em nome das aparências, enquanto se acumulam a privação crônica do sono, o silenciamento das angústias e a supressão das individualidades. Nesse contexto, pedidos interiores de socorro, manifestos como transtornos mentais ou doenças físicas, são frequentemente minimizados ou ignorados para a manutenção de uma imagem social autoimposta. Não por acaso, cresce a preocupação com as elevadas taxas de adoecimento psíquico e suicídio entre médicos e estudantes de medicina.

Diante desse cenário, a medicalização do sofrimento surge como resposta recorrente. Antidepressivos e ansiolíticos tornam-se estratégias rápidas para anestesiar o mal-estar, muitas vezes sem enfrentar suas causas estruturais. O resultado é um esvaziamento progressivo do sentido do fazer médico, no qual subjetividades se fragmentam e a prática se distancia da humanidade de quem cuida.

Ainda assim, é possível rasgar esse véu. Resgatar a dimensão humana da medicina implica reconhecer limites, legitimar a vulnerabilidade e compreender que prazer, sentido e imperfeição não se opõem à excelência. Cuidar de si não fragiliza o médico; ao contrário, sustenta sua capacidade de cuidar do outro.

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