Às vésperas do maior evento climático já realizado em solo paraense e poucos dias após a celebração do Dia Nacional do Médico, o cenário da saúde pública no Pará é de apreensão e indignação. O Hospital Regional do Baixo Amazonas, em Santarém, unidade de referência para mais de um milhão de habitantes da região, enfrenta uma grave crise de desabastecimento, colocando em risco a vida de pacientes e as condições de trabalho dos profissionais de saúde de todos os regionais.
Enquanto os gastos com a COP30 atingem cifras bilionárias, faltam recursos básicos para garantir o funcionamento adequado do hospital, administrado pela Organização Social (OS) Mais Saúde. Médicos, enfermeiros e pacientes denunciam a escassez de medicamentos, insumos e materiais cirúrgicos.
O contrato de gestão do Hospital Regional do Baixo Amazonas, firmado entre a Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sespa) e a Organização Social Mais Saúde, possui valor inicial de R$ 13,8 milhões, acrescido de 12 termos aditivos, incluindo o mais recente, de R$ 6,48 milhões, com vigência até 27 de novembro de 2025. Mesmo com cifras expressivas e sucessivos acréscimos contratuais, o serviço prestado à população segue marcado por falta de medicamentos, insumos e materiais hospitalares essenciais, além da suspensão de cirurgias e tratamentos, o que evidencia uma profunda discrepância entre os recursos públicos destinados à gestão da unidade e a precariedade vivida diariamente por pacientes e profissionais de saúde.
Em vídeo que circula nas redes sociais, a paciente Ana Carolina, internada no Regional de Santarém, relata a frustração e o sofrimento causados pela falta de equipe médica e estrutura mínima para atendimento.
“Eu estava de jejum até 11h da manhã, e o médico me informou que a cirurgia não poderia ser realizada porque o hospital está sem equipe vascular completa. Esperei dois meses por esse procedimento. É desesperador. A gente não está aqui porque quer, mas porque precisa”, desabafou.
Veja o vídeo:
https://www.instagram.com/reel/DQZ5RTqEQnq/?igsh=b2cza2l6bWIyZXVi
Nos comentários da publicação, dezenas de outros pacientes confirmaram a denúncia. “Tudo o que ela relata é verdade. Estou internada aqui e o hospital está um caos, com péssima gestão”, afirmou uma interna.
“Não tem dinheiro para material hospitalar, mas para a COP30 tem”, escreveu outro usuário.
Profissionais do hospital, que preferem não se identificar por medo de represálias, confirmam o cenário crítico. Segundo eles, faltam medicamentos essenciais, inclusive imunoterápicos e quimioterápicos utilizados no tratamento de câncer. Essa escassez tem causado danos irreparáveis à saúde de pacientes oncológicos, que dependem do Regional para a continuidade de seus tratamentos.
A crise de desabastecimento atinge diretamente a realização de cirurgias, tratamentos clínicos e a realização de exames complementares, resultando na suspensão de agendas médicas e no agravamento do estado clínico de saúde de pacientes. Há relatos, inclusive, de óbitos evitáveis no hospital.
Entre os itens em falta ou em estoque crítico, estão medicamentos quimioterápicos e imunoterápicos para tratamento de câncer, antibióticos, antieméticos, analgésicos, soros, seringas, luvas de procedimento, esparadrapo, gazes, materiais para procedimentos cirúrgicos e de hemodiálise, catéteres, entre outros.
A falta desses materiais compromete o trabalho ético e técnico dos profissionais de saúde e já levou à suspensão de cirurgias de alta complexidade, ortopédicas, neurológicas, cardiológicas, urológicas e oncológicas, realizadas exclusivamente no Hospital Regional. Com isso, as filas por exames, consultas especializadas e cirurgias aumentam a cada dia, agravando o sofrimento de milhares de pacientes que dependem do SUS na região do Baixo Amazonas.
Diante da gravidade da situação, pacientes e profissionais clamam por providências urgentes da Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sespa) e da OS Mais Saúde, para garantir o reabastecimento regular e contínuo do hospital e o atendimento digno à população.
O Sindicato dos Médicos do Pará (Sindmepa) informa que tomou conhecimento das denúncias e vai encaminhar o caso aos órgãos de fiscalização, incluindo o Ministério Público Estadual (MPE), Ministério Público Federal (MPF), Tribunal de Contas do Estado (TCE), Conselho Estadual de Saúde e Comissão de Saúde da Assembleia Legislativa, solicitando medidas urgentes para restabelecer as condições mínimas de atendimento e assegurar o direito à saúde da população.
“O Hospital Regional é a principal referência da região do Baixo Amazonas. O que está acontecendo é inaceitável. Não se pode falar em sustentabilidade e grandes eventos se a população está sem acesso a medicamentos, cirurgias e tratamentos essenciais”, alerta o Sindmepa.
Enquanto isso, o sentimento de quem depende do Regional é o mesmo: medo, angústia e um pedido de socorro.



