Entre o lucro e o sofrimento: o capitalismo como determinante da saúde mental em comunidades ribeirinhas

O debate contemporâneo sobre saúde mental tem avançado ao reconhecer que o sofrimento psíquico não pode ser compreendido apenas a partir de fatores individuais, biológicos ou clínicos. Estudos em saúde coletiva e nas ciências sociais evidenciam que os modos de produção, a organização do trabalho e as desigualdades estruturais desempenham papel central na determinação do adoecimento mental. Nesse contexto, o capitalismo, especialmente em sua configuração neoliberal, configura-se como determinante social relevante, ao produzir precarização, insegurança e invisibilização de populações historicamente marginalizadas, como as comunidades ribeirinhas.

Ao analisar a saúde mental dessas populações, é fundamental deslocar o olhar do indivíduo isolado para o território e para as relações sociais que o constituem. As comunidades ribeirinhas vivenciam vulnerabilidades específicas, marcadas pelo acesso desigual às políticas públicas, pela exploração de seus territórios, pela degradação ambiental e pela fragilidade dos serviços de saúde. Tais condições produzem formas de sofrimento psíquico coletivo, que não podem ser reduzidas a experiências individuais.

Sob a perspectiva dos determinantes sociais da saúde, o processo saúde-doença é indissociável das condições históricas, econômicas e políticas em que os sujeitos estão inseridos. A lógica capitalista, ao priorizar o lucro, aprofunda desigualdades e naturaliza a exclusão de determinados grupos. Para as populações ribeirinhas, isso se expressa na exploração dos recursos naturais sem retorno social, na precarização do trabalho, na instabilidade econômica e na desproteção social, fatores que impactam diretamente a saúde mental, além de contribuir para o seu apagamento simbólico.

Diante disso, tornam-se imprescindíveis políticas de saúde pública que incorporem os determinantes sociais da saúde mental e superem abordagens exclusivamente medicalizantes. O cuidado passa a envolver escuta qualificada, fortalecimento dos vínculos comunitários e intervenções territorializadas. Promover saúde mental, nesse contexto, implica garantir condições dignas de vida, reconhecimento social e valorização dos saberes e modos de existência das populações ribeirinhas.

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