O DESAFIO GEOGRÁFICO DO CUIDADO: A SAÚDE PÚBLICA NO MARAJÓ E INTERIORES DO PARÁ

A estruturação do Sistema Único de Saúde (SUS) nos interiores da Amazônia Paraense, com particular destaque para o Arquipélago do Marajó, configura um dos cenários mais emblemáticos da tensão entre a universalidade normativa e a iniquidade territorial. A análise científica contemporânea revela que a implementação de políticas de saúde nessa região não enfrenta apenas obstáculos logísticos, mas uma profunda negligência estrutural que reflete o que Fausto et al. (2022) definem como o desafio dos “municípios rurais remotos”. Nesses territórios, a “distância” não é apenas uma métrica geográfica, mas uma barreira política que fragmenta o cuidado e marginaliza as populações ribeirinhas. A introdução das Unidades Básicas de Saúde Fluviais (UBSF) representou um esforço de adaptação tecnológica, contudo, como demonstram Schweigert et al. (2020), o modelo de financiamento federal permanece atrelado a uma lógica urbana e terrestre, subestimando o “Custo-Amazônia”. Esse subfinanciamento crônico impede a manutenção da regularidade das visitas domiciliares nos “furos” e igarapés, transformando o direito à saúde em um serviço intermitente e, por vezes, inacessível.

Ademais, a persistência de doenças negligenciadas e o agravamento de indicadores de saúde materno-infantil no Marajó são indissociáveis da precariedade do saneamento ambiental e da falha na regionalização assistencial. Conforme aponta Pires et al. (2023), a rede de média e alta complexidade está excessivamente concentrada em Belém, forçando fluxos migratórios pendulares de pacientes que, sem suporte logístico adequado, sucumbem ao agravamento de quadros que seriam resolvíveis na Atenção Primária. Essa desarticulação é exacerbada pela rotatividade profissional crônica. A ausência de uma carreira de Estado que assegure a fixação de equipes multidisciplinares resulta em uma assistência episódica, onde o vínculo — pilar fundamental da Estratégia Saúde da Família — é sistematicamente rompido. Garnelo et al. (2020) reforçam que essa fragilidade institucional é agravada pela falta de interculturalidade nas práticas de cuidado, que muitas vezes ignoram os saberes tradicionais das comunidades marajoaras, gerando um distanciamento entre o serviço e o usuário.

Em última análise, a crise da saúde nos interiores do Pará não é um fenômeno de escassez fortuita, mas o resultado de um modelo de governança que insiste em aplicar soluções homogêneas a territórios heterogêneos. A análise crítica do cenário revela que o Estado brasileiro, ao não pactuar repasses diferenciados e ao negligenciar a infraestrutura básica de transporte e conectividade, perpetua uma cidadania de segunda classe na Amazônia. A manutenção desse status quo evidencia um “universalismo excludente”, onde a existência do sistema no papel não garante a dignidade da vida na beira do rio. Portanto, a superação desse quadro exige mais do que intervenções pontuais; demanda uma ruptura com a lógica metropolitana de gestão, reconhecendo que a equidade no SUS só será alcançada quando a geografia das águas deixar de ser lida como um empecilho e passar a ser o fundamento do desenho das políticas públicas regionais.

Por Antônio Costa, diretor de pesquisa, 25/03/2026.

FAUSTO, M. C. R. et al. Atenção Primária à Saúde em municípios rurais remotos no Brasil. Ciência & Saúde Coletiva, v. 27, 2022.

GARNELO, L. et al. Acesso e itinerários terapêuticos de populações ribeirinhas na Amazônia. Revista de Saúde Pública, v. 54, 2020.

PIRES, M. R. G. M. et al. Regionalização e equidade no SUS: a lacuna entre o direito e a realidade amazônica. Saúde em Debate, v. 47, 2023.

SCHWEIGERT, R. et al. Desafios da Atenção Básica no Arquipélago do Marajó: o papel das unidades fluviais. Cadernos de Saúde Pública, v. 36, 2020.

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