O SUS entre a inovação e a falta de insumos

O projeto “SUS Inteligente”, ancorado no Instituto Tecnológico de Medicina Inteligente (ITMI-Brasil), surge como um marco de modernização ambicioso. Prometendo integrar inteligência artificial e redes 5G, o governo federal busca inserir a saúde pública na era 4.0. Contudo, a destinação de quase R$ 5 bilhões para centros de excelência levanta uma questão administrativa: é prudente acelerar a digitalização de ponta enquanto a base do sistema, essencial para alimentar qualquer algoritmo, opera em condições precárias?

Embora a estrutura legal do SUS atribua aos municípios a execução da Atenção Primária, cabe à União o papel de principal financiadora e indutora de políticas nacionais. Ao priorizar centros isolados de tecnologia, o governo federal arrisca aprofundar o espaço entre a medicina de alta complexidade e o cotidiano das Unidades Básicas de Saúde. O investimento em prevenção e Estratégia Saúde da Família é comprovadamente mais eficiente: estudos indicam que a atenção básica resolve até 80% das demandas de saúde com um custo significativamente inferior ao de leitos hospitalares de última geração.

Além disso, a eficácia da IA depende da qualidade dos dados coletados. No Brasil, a fragmentação dos registros e a precariedade digital em cidades menores tornam a promessa de “análise preditiva” uma meta frágil. Sem uma base sólida e integrada, a tecnologia torna-se um acessório de luxo pouco usual. Há o temor de que o foco na alta complexidade tecnológica enfraqueça o aporte de recursos federais para programas de prevenção, que são os únicos capazes de reduzir a mortalidade em escala nacional de forma sustentável.

Além disso, a transparência no uso de algoritmos e a garantia de que a saúde não seja submetida a lógicas meramente mercadológicas são fundamentais. Ademais, o custo de manutenção e a necessidade de treinamento constante podem transformar esses centros em “elefantes brancos digitais” caso o orçamento federal não garanta a sustentabilidade de longo prazo para além da construção física.

Em suma, a modernização do SUS é necessária, mas não deve ser feita de forma isolada da realidade estrutural. A tecnologia deve servir para reduzir as filas da base, e não apenas para equipar centros de pesquisa de elite. Sem médicos e insumos distribuídos na base, a inteligência artificial será apenas um diagnóstico avançado para um sistema que já sabemos estar em estado crítico. O desafio não é apenas construir o hospital do futuro, mas garantir que o financiamento federal incentive um presente funcional para todos.

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