O mês de março é marcado pela campanha “Março Roxo”, dedicada à conscientização sobre a epilepsia, uma doença neurológica que afeta milhões de pessoas no Brasil e no mundo. Para entender melhor os desafios enfrentados por aqueles que convivem com essa condição e como a sociedade pode colaborar para a inclusão, conversamos com a neurologista Marina Tuma Silva Pacheco, especialista no tema.
- Quais são os principais desafios enfrentados por pessoas com epilepsia e como a sociedade pode contribuir para a inclusão delas?
De acordo com a Dra. Marina, as pessoas com epilepsia enfrentam desafios significativos, não apenas devido à doença em si, mas também ao estigma social que ainda persiste. “O preconceito é uma realidade, muitas vezes derivado da falta de informação. A epilepsia é uma condição neurológica crônica e, embora seja tratável, as crises podem gerar medo e incompreensão nas pessoas ao redor”, afirma a neurologista.
A sociedade, segundo ela, pode fazer muito para a inclusão dessas pessoas. “A principal contribuição da sociedade é a disseminação de informações sobre a doença, a conscientização sobre os cuidados necessários durante uma crise e a eliminação de barreiras em contextos como o trabalho e a vida social”, completa.
- Quais são os principais tipos de epilepsia e como cada um pode afetar a vida do paciente? Há alguma diferença no diagnóstico e no tratamento da epilepsia em crianças, adultos e idosos?
A Dra. Marina explica que existem dois tipos principais de epilepsia: a focal e a generalizada. “A epilepsia focal afeta uma parte do cérebro e suas crises tendem a ser mais leves, enquanto a epilepsia generalizada compromete os dois lados do cérebro, o que pode resultar em crises convulsivas”, detalha.
O tratamento da epilepsia varia de acordo com a faixa etária. Crianças, por exemplo, geralmente são acompanhadas por neuropediatras, devido às particularidades do tratamento nesse período da vida. Já os adultos são tratados por neurologistas clínicos, sendo que a grande maioria dos casos envolve o uso de medicamentos anticonvulsivos. “Em idosos, as causas da epilepsia podem estar relacionadas a doenças cerebrovasculares, como o acidente vascular cerebral (AVC), e os cuidados exigem um acompanhamento ainda mais rigoroso devido à complexidade da saúde nessa fase da vida”, alerta a médica.
- É possível prevenir a epilepsia? Quais são as causas mais comuns que podem levar ao desenvolvimento da doença?
Embora não seja possível prevenir todos os casos de epilepsia, a Dra. Marina aponta que existem várias causas preveníveis que podem diminuir o risco de desenvolvimento da doença. “Entre as causas mais comuns estão os traumatismos cranianos, AVCs, tumores cerebrais e complicações no parto, como a anóxia neonatal, que é a falta de oxigênio no cérebro. As lesões na cabeça podem ser prevenidas com o uso de equipamentos de segurança, como capacetes, e cuidados durante o parto”, explica.
Ela também ressalta a importância dos cuidados perinatais adequados e da prevenção de fatores cardiovasculares, como hipertensão e diabetes, que podem levar a um AVC e, consequentemente, ao desenvolvimento de epilepsia.
- Quais são os cuidados que familiares e amigos devem ter com uma pessoa durante uma crise epiléptica?
Quando se trata de um episódio de crise, a Dra. Marina enfatiza a importância da calma e do conhecimento sobre os procedimentos corretos a serem seguidos. “O primeiro passo é manter a calma e garantir que a pessoa não se machuque. Afaste-a de objetos perigosos e proteja a cabeça dela com algo macio, como um travesseiro ou casaco. É importante também virar a cabeça para o lado, permitindo que a saliva escorra naturalmente. Jamais tente segurar a pessoa ou colocar algo na boca, pois isso pode resultar em acidentes”, orienta.
A maioria das crises é autolimitada, ou seja, dura entre 2 a 3 minutos. Caso a crise se prolongue, é fundamental chamar imediatamente os serviços de emergência, como o SAMU.
- Qual a importância do acompanhamento médico contínuo para quem tem epilepsia? Como garantir uma boa qualidade de vida com a doença?
A Dra. Marina enfatiza a importância do acompanhamento médico constante. “O tratamento da epilepsia deve ser monitorado por um neurologista, com consultas periódicas para ajustes nos medicamentos e orientações sobre o manejo da doença. Além disso, hábitos de vida saudáveis são fundamentais”, afirma.
Ela sugere que os pacientes procurem dormir de 6 a 8 horas por noite, evitem o estresse excessivo e sigam rigorosamente as orientações sobre o uso de medicamentos, não deixando de tomar a medicação nos horários prescritos. “O controle das crises melhora significativamente a qualidade de vida. Muitos pacientes conseguem levar uma vida social ativa e até mesmo continuar trabalhando”, observa.
- Há alguma perspectiva de cura para a epilepsia no futuro, ou o tratamento ainda está focado no controle das crises?
Ainda não existe cura para a epilepsia, mas o tratamento tem avançado significativamente. “Atualmente, temos medicamentos mais modernos com menos efeitos colaterais, permitindo que muitos pacientes levem uma vida normal. O foco, hoje, é no controle das crises, e a maioria dos pacientes responde bem ao tratamento”, explica a Dra. Marina.
Ela também destaca que, em alguns casos, tratamentos mais avançados, como a cirurgia, podem ser uma opção para aqueles cujas crises não respondem aos medicamentos. “Há muitas pesquisas em andamento, e novas opções de tratamento estão surgindo, o que traz esperança para aqueles que vivem com epilepsia”, conclui.
Conclusão
A epilepsia é uma condição que, apesar de ser tratável, ainda enfrenta desafios relacionados ao preconceito e à falta de compreensão. A conscientização, tanto por parte dos profissionais de saúde quanto da sociedade, é crucial para garantir que as pessoas afetadas pela doença tenham a chance de viver com dignidade e qualidade de vida. O “Março Roxo” serve não apenas para informar, mas também para refletirmos sobre como todos nós podemos contribuir para a inclusão e o apoio a essas pessoas.